VIVER AVULSO
Os pensamentos mais obscuros
e a ventania mais cruel
são as fontes de turbações
que vaporizam a esperança de céu.
A esperação e o frustramento
brotos são do desespero
que espelham o precipício.
No reflexo do abismo,
vê-se nua a face do medo,
embebeda-se da vertigem e
abraça-se ao frio eletrizante.
Congelam-se os pensamentos,
a brisa letárgica assovia e
como ribeiro tranquilo
leva consigo a confiança.
A fonte seca das turbulências,
o céu, no espelho do chão,
reflete o tênue lume
da frágil latente vida.
Tudo que distante eras,
em eras próximas se desfaz,
o canto que gemia o dolente,
N morte morto não lhe dói não mais.
Espera em quanto cai,
chamando-lhe o rochedo duro,
o corpo sutil se esvai,
par hasard rumo ao futuro.
Nenhuma das libações,
culto, canto ou sacrifício,
pode nesse instante insólito
devolver-lhe confiança.
O surdo destino grita,
a voz do temor crepita,
a chama d'alma esfria-se
enquanto descamba, o corpo.
O espírito vagueia nas ondas
da fútil imaginação,
afoga-se no desespero, e
todo desejo é vão.
Ninguém que já, a morte beija,
pode ter tino e forte pulso,
nascer é desejo alheio,
morrer é viver avulso.
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