terça-feira, 2 de junho de 2026


VIVER AVULSO


Os pensamentos mais obscuros
e a ventania mais cruel
são as fontes de turbações 
 que vaporizam a esperança de céu. 
A esperação e o frustramento 
brotos são do desespero 
que espelham o precipício. 
No reflexo do abismo, 
vê-se nua a face do medo, 
embebeda-se da vertigem e 
abraça-se ao frio eletrizante. 
Congelam-se os pensamentos,
a brisa letárgica assovia e
como ribeiro tranquilo 
leva consigo a confiança. 
A fonte seca das turbulências, 
o céu, no espelho do chão, 
reflete o tênue lume 
da frágil latente vida. 
Tudo que distante eras, 
em eras próximas se desfaz, 
o canto que gemia o dolente, 
N morte morto não lhe dói não mais. 
Espera em quanto cai, 
chamando-lhe o rochedo duro, 
o corpo sutil se esvai, 
par hasard rumo ao futuro. 
Nenhuma das libações, 
culto, canto ou sacrifício, 
pode nesse instante insólito 
devolver-lhe confiança. 
O surdo destino grita, 
a voz do temor crepita, 
a chama d'alma esfria-se 
enquanto descamba, o corpo. 
O espírito vagueia nas ondas 
da fútil imaginação, 
afoga-se no desespero, e 
todo desejo é vão. 
Ninguém que já, a morte beija, 
pode ter tino e forte pulso, 
nascer é desejo alheio, 
morrer é viver avulso. 

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