terça-feira, 2 de junho de 2026

AFORISMA EFÊMERA

A Rapariga

É forte como árvore d’aroeira,

Marca de sua presença à natureza.

Ela tem pernas grossas

Cabelos desgrenhados acaju,

Bunda empinada, lábios carnudos,

Olhos negros maquiados,

E dentes brancos, faltando um.

Acosta-se ao som da cachoeira

Seu feminil ardor, do sol, beijada.

Macho algum lhe é suficiente,

Nenhum contém-lhe o fragor.

Ela de doces olhos belicosos,

Tem a fervura que gera, envolve e nutre.

Seus espias embasbacam-se entre arbustos,

Enquanto a diva afaga o corpo apetitoso,

Passeando as delicadas mãos sobre o rosto,

E, de quando em vez, a pube róscida, acarinha.

Entumece o mundo macho, a vista bela,

Que a serena imagem, à paisagem, acrescenta.

Seu dulçor, suas fantasias se espalham

Sobre a pradaria, descendo a ribeira;

O calor da rapariga sobe os montes,

Seu perfume inebriante singra os mares,

E os mastros elevados, acaricia.

A rapariga é seivosa e pulsante,

Deliram marujos há muito errantes,

Que não sabem dela, os desejos,

Nem podem com seus casos dá-lhe alcance,

Até que bela de seu leito se alevante,

Com rubra tez, seios fartos e lábios grandes,

Sem tino, nem destino, nem má-fama.

Ela, displicentemente, arrelia                                                                                                                                                                                                                                                

O cobiçoso raparigo delirante

Que sem ela nada pode,

Sente muito,

E menos fofa...

Maggour Missabbib, 5774

 

 

 

VIVER AVULSO


Os pensamentos mais obscuros
e a ventania mais cruel
são as fontes de turbações
que vaporizam a esperança de céu.
A esperação e o frustramento 
brotos são do desespero 
que espelham o precipício. 
No reflexo do abismo, 
vê-se nua a face do medo, 
embebeda-se da vertigem e 
abraça-se ao frio eletrizante. 
Congelam-se os pensamentos,
a brisa letárgica assovia e
como ribeiro tranquilo 
leva consigo a confiança. 
A fonte seca das turbulências, 
o céu, no espelho do chão, 
reflete o tênue lume 
da frágil latente vida. 
Tudo que distante eras, 
em eras próximas se desfaz, 
o canto que gemia o dolente, 
N morte morto não lhe dói não mais. 
Espera em quanto cai, 
chamando-lhe o rochedo duro, 
o corpo sutil se esvai, 
par hasard rumo ao futuro. 
Nenhuma das libações, 
culto, canto ou sacrifício, 
pode nesse instante insólito 
devolver-lhe confiança. 
O surdo destino grita, 
a voz do temor crepita, 
a chama d'alma esfria-se 
enquanto descamba, o corpo. 
O espírito vagueia nas ondas 
da fútil imaginação, 
afoga-se no desespero, e 
todo desejo é vão. 
Ninguém que já, a morte beija, 
pode ter tino e forte pulso, 
nascer é desejo alheio, 
morrer é viver avulso. 

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