segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Poemas de morte

Meus poemas de morte
trazem os pulsos latejantes
daquilo que viceja e brota
de amor, criando versos lancinantes.

Ou trazem de si mesmas essas latências,
a vida que explode em glacial vulcão?
Ou deixam estes lábios infamados,
a prosa desta dúbia criação?

Os meus anversos tracejam,
e as matinais mônadas a recrear
chafurdam a larva gosmenta a poetar
e, fazem surgir versos que encantam.

Assim, lampejam céus enfurecidos
sobre meditabundos arvoredos de humanos
que floreiam serpentários de razão...

Há quem cante o poema mais latente,
deixando vagas as lembranças de aquém.
Há quem negue a verdade mais instante,
trazendo à tona reminiscências de além.

Mas, à poética falsa, falta-lhe a fortuna
o fado de cada dia, a cada um.
E, alguém transcende esse ribeiro fumegante
Sem honra, sem medo, sem sabor...


Maggour Missabbib
5776

Pretenso e fugaz

Dormindo num manto de lama
A fétida esperança onírica,
Que embriaga e ofusca o momento,
Leva-me aos umbrais do Hades.
Mas, não possuo o metal da entrância:
Sou devoluto e vagueante neste mar...

As procelosas vagas que flutuam esta nau
não permitirão ao abismo tragar o sopro meu,
Nem a noite brilhante de vaga-lumes 
ou os chuviscos pontiagudos do medo,
seguindo a trilha dos rastros desaguados,
podem a regressiva via do perdido perfazer.

Ouçam as vozes que bramam do profundo,
Leva o cântaro transbordante de vergonha!
Pois, ninguém me afeta, mas o feto me corrói...

Algo de nada copula com a leviandade
É progênie daquilo que sulca minha beleza...

O dulçor avinagrado e o tal odor de fel
revolveram-me as entranhas em lodo;
o visgo da crença grudou-me os dentes,
e a fadiga impôs a mentira como bordão.

Sou frágil e argiloso e escorregadiço.
O vício da minha virtude consume, e
ela, abrindo a boca profere com férrea exatidão
uma sentença de vida e ávida fuga
para o efêmero e fugaz pretensioso
humano...


Maggour Missabbib, 5776

Vívido vazio

No tempo, pela roda viva marcada,
segue a vida o curso fluido e indelével.
O campo vazio e a fonte seca
a mesma escuridão apaga,
duplamente, o alvorecer e o arrebol,
e, nada preenche o vazo da ingratidão.

O sumo cáustico da floresta envenenada
flui atravessando as veias da realidade...

Correm, uivando, ventos entre rochedos,
que areias cortantes sopram para o mar,
lavrando pedregais, varrendo desertos...

Segue a vida, inóspita e cintilante.
Vazio o vazo sorve o rarefeito sopro,
levando o suspiro e a vívida canção!

Malkah,
5775

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

A dream within a dream - Edgar Alan Poe


Take this kiss upon the brow!
And, in parting from you now,
Thus much let me avow
You are not wrong, who deem
That my days have been a dream;
Yet if hope has flown away
In a night, or in a day,
In a vision, or in none,
Is it therefore the less gone?
All that we see or seem
Is but a dream within a dream.

I stand amid the roar
Of a surf-tormented shore,
And I hold within my hand
Grains of the golden sand-
How few! yet how they creep
Through my fingers to the deep,
While I weep- while I weep!
O God! can I not grasp
Them with a tighter clasp?
O God! can I not save
One from the pitiless wave?
Is all that we see or seem
But a dream within a dream?

  ...

 Um sonho dentro de um sonho

Receba este beijo sobre tua fronte!
E, apartando-me de ti neste instante
permita-me, então, assaz confessar
Não estás errada, em haver consentido,
Que esses meus dias um sonho têm sido;
Se já a esperança fluiu pela via
Em uma noite, ou em um dia,
Em uma visão, ou em nenhuma,
É, portanto, o que se foi ao menos alguma?
Tudo o que vemos ou nos parece, suponho,
É apenas um sonho dentro de um sonho.

Eu me posto entrementes o rugido
De uma costa turbada pelo bramido
E tenho na mão, bem apertados,
Grãos de areia da praia dourados
Quão poucos! Ainda assim escorrem lentos
Pelos meus dedos ao abismo adentro
Enquanto eu lamento, enquanto eu lamento!
Ó Deus! Não os posso ter agarrados
Em meus punhos bem apertados?
Ó Deus! Não posso enfim salvar
Algum desses do infinito vagar?
É tudo o que vemos ou nos parece, suponho,
Apenas um sonho dentro de um sonho.


Melk Vital
2016






quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Minha manhã imersa de sol de orvalho odorada


O amor é desejante e desejável, mais que o gosto natural.
No amor não há desejo desordenado, é suave e compassivo.
A fraqueza do amante é imperfeição do afeto,
é medo da perda, é solidão da amizade,
é idiotice onde a paixão subjuga a razão do seu amor,
porque a perfeição do amar é compreender,
é aceitar, é doar aquilo que a amanda deseja e quer...
A solidão é um rio caudaloso, mas, diz o profeta:
“as muitas águas não podem afogar o amor.”
A voz do poeta se cala diante da possibilidade de errar o verso
quando o anverso branco se mancha de saudade,
mas da solidão e do silêncio vem a rima inquebrável...
E a lua sombria e melancólica nega a importância
do fogo do sol, e surge em plenilúnio.
O rio fluente intrépido percorre as margens serenas
e não retorna, e, resolve-se na amplidão do mar.
A flor impassível ao beijo do colibri esparge olor pelo jardim,
invejando a liberdade do pássaro que a corteja.
O calor solar, as margens plácidas, o beija-flor
são melhores que eu, desejando o teu amor...
Pois, a minha amada é mais linda e desejável
que uma manhã tépida e clara,
e de orvalho perfumado de jasmins...
Nesse Parnaso, sois brilham criando manhãs,
ventos sopram impulsionando a vida,
luas douradas embelezam noites,
e tu, odorosa e bela, encanta meu prazer...


Melk Vital

2015

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Ser vil ilação



Beija-me nojenta mente
Que banhado em chorume
Sou socializado,
Planteando sórdidas ideias
Cavalgo o lombo da ilusão.

Sou falso, nojenta mente,
Minta-me com pureza,
Que a hipocrisia purulenta
Roeu-me o metatextículo
E doeu-me o ideal.

Nojentamente idealizei-me
Ao arrigado linho da bandeira
Mostrei-me entrementes
A donzela a prostituta a mulher...
Se vil, vai à vilã, a vida vai,
Se não viu, vem a verme.

A civil ação dissidiada
Da chorumoza civilização
Em lúdico demonárquico governada
Trazendo à luz rebento da corrupção.

Nessa turba, sou civil desmilitante
Que na umbrosa câmara disputado
O olor d’esterco inalante
Revolve o vômito sociável
D’agora, d’outrora, doravante...


Maggour Missabbib

5775

Loba (r)uiva em síncronos dedilhados


Lua cheia e céu brocado de crateras
O uivo da loba na ravina
Soou como cântico sacrossanto.
Nenhum dos sonhos libidinosos
Ou qualquer das volúpias mais sedosas
Podiam alentar o respiro desesperado de Flora

As crateras revolvidas
E batidas areias celestiais
As rajadas de ventos solares
E nebulosas e tímidas constelações
Nenhum dos pesadelos horrendos
Ou qualquer das malevolências mais ardilosas
Podiam desalentar a esperança repousada e telúrica

Mas, os castanhos claros
O grisalho prateado quase cãs
Beiços oblongos e desavergonhados
E picarescas tiradas rudes, 
O descompromissado tórrido discurso
De desrespeitosos desejos ardidos
As mãos atrevidas quase loucas...

 Veludosa cona devaneava deflorada
Extraindo o sumo a síncronos dedilhados,
Uivava a loba envolta na pele ruiva
No campo sob lúneas figuras
E trololava ruídos e sussurros.
Deleitosa estendida sobre a relva,
de sublunares castanhos claros alumiada,
Perfumada e sedenta sorvia o néctar 
Emaranhada na trama dos acinzentados
Jurava e amava e mentia,
De afeto e dedicativa impregnada.


Malkah, 5776